Existe antídoto para a vida? Para esse gosto estranho, nem doce, nem amargo, que resta do não vivido? Dizem que é geracional, mas todos os poetas, os verdadeiros poetas, foram desacreditados em seu tempo. A poesia de hoje, que versa sobre o presente, recebe o mesmo desprezo. Todos marginais. Dizem que a vida imita a poesia, nutrimos este desprezo pelo presente, pela nossa capacidade de alterá-lo. Como se o tempo futuro trouxesse sempre novas possibilidades, esse caminhar no escuro que nos traz a esperança da luz. Como o burro atrás da cenoura, caminhamos
Mas para onde? Para quê? Para nada, mais fácil querer nada que nada querer, já dizia aquele filósofo clichê do Facebook. A maior arte da vida é vivê-la com todas as suas contingências, suportar epicamente as surpresas (muitas vezes previsíveis) que ela nos oferece. Vivemos a época em que reclamar é sempre relevante, vivemos para reclamar. O que eu faço nesse momento, senão…
Queria que fosse diferente, mas essa angústia misturada com desprezo. O que você sabe sobre esse desprezo? Também é um sintoma geracional? Também é geracional essa paralisia, a imobilidade do pescoço para baixo? Ou é só a conjuntura político, social, econômica e cultural? O que nos provoca a agir, a sair do lugar em que estamos? A sair da comodidade? E quando o incômodo é mais cômodo que a mudança? E o medo? Qual o tamanho do seu, do meu, do nosso medo?
Dizem que precisamos pensar. Sinto que sei pensar mais que agir, que toda a racionalidade que me ensinaram a construir serve mais para me paralisar que para tomar decisões. Que mesmo que eu observe todos os aspectos sempre falta a diferença necessária para escolher. Outro problema geracional, temos tantas oportunidades que todas as vezes que fazemos uma escolha sentimos como se tirassem todos os outros pedaços que tivemos que abandonar.
Existe antídoto para a vida? Esse veneno que não mata, que aos poucos paralisa, diminui o riso, nos torna mais sérios, ensina-nos que a falta de sentido, a nossa impotência, o tamanho da teia enorme em que estamos inseridos e que não conseguimos visualizar. O enorme labirinto em que nos prenderam. Vou sentar no chão e meditar até levitar e conseguir observá-lo de cima.
Somos tão autocentrados que a escrita do nosso tempo é acusada de ser autobiográfica. Mas qual escrita não foi autobiográfica, se até os labirintos borgianos são inspirados nas suas desventuras? Tanta ciência, tantos livros, para nos mostrar que o caos reina. Que o grande senhor de nossas vidas não é vetorial, causal ou o que quer que seja minimamente controlável. Nós criamos formas de torná-lo aparentemente submetido à nossa racionalidade porque algumas contas resolvem alguns problemas práticos. Porque alguns padrões são repetidos. No fundo é o caos nos sorrindo e demonstrando o tamanho da nossa insignificância.
Mais uma graça: até a teoria do fracasso é a narrativa de um fracassado dois gumes. O vírus do relativismo me pegou. Mas se você tenta ter sucesso e fracassa, é um fracassado. Por outro lado, se você justifica tudo como sendo um fracasso, você é um fracassado. Somos todos fracassos. Quem foi que inventou o sucesso? O mais fracassado de todos que precisava se sentir melhor que os demais fracassados.
Os trogloditas tudo sabem:
A morte (ou sua alusão) torna preciosos e patéticos os homens. Estes comovem por sua condição de fantasmas; cada ato que executam pode ser o último; não há rosto que não esteja por dissolver-se como o rosto de um sonho. Tudo, entre os mortais, tem o valor do irrecuperável e do inditoso. Entre os Imortais, ao contrário, cada ato (e cada pensamento) é o eco de outros que no passado o antecederam, sem princípio visível, ou o fiel presságio de outros que no futuro o repetirão até a vertigem. Não há coisa que não esteja como que perdida entre infatigáveis espelhos. Nada pode ocorrer uma só vez, nada é preciosamente precário. O elegíaco, o grave, o cerimonioso não vigoram para os Imortais. Homero e eu nos separamos nas portas de Tânger; creio que não nos dissemos adeus.Não. Não há antídoto para a vida, a não ser a própria vida e seu conta gotas diário.